CPI da Covid: em depoimento, Mandetta diz que Bolsonaro foi alertado das consequências pela omissão

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta presta depoimento nesta terça-feira, 14, a senadores na CPI da Covid, que investiga ações de omissões de autoridades na pandemia. Questionado pelos senadores se houve alguma proposta técnica do presidente Jair Bolsonaro ao ministério quando estava na pasta, Mandetta afirmou que não e que “o que havia ali era um mal estar”. “O que havia ali era um outro caminho, que ele decidiu, não sei se através de outras pessoas ou por conta própria”, afirmou. “Era muito constrangedor explicar porque o ministério estava indo por um caminho e o presidente por outro.” Mandetta também afirmou que Bolsonaro foi alertado das consequências de não ouvir a ciência, inclusive com a projeção de alto número de mortes caso as medidas indicadas pela OMS não fossem seguidas.

Também afirmou que o isolamento social teria sido uma medida adequada no início da pandemia, quando era ministro. “Naquele momento era fundamental que se fizesse uma fala una em relação à prevenção e que se fizesse o isolamento”, afirmou. “Primeiro porque tínhamos baixo número de casos. E porque essa doença entrou pelos ricos, estava no hospital Albert Einstein, no hospital Sírio-Libanês.” O senador Renan Calheiros lembrou que o presidente da República se colocou contra o isolamento e defendeu o chamado “isolamento vertical”, que seria apenas isolar idosos e vulneráveis. Mandetta já havia dito durante a sessão que uma das mentiras que o ministério teve que combater foi a “teoria de isolamento vertical” (de isolar apenas idosos) — algo que era defendido pelo presidente Bolsonaro.

O foco dos senadores é descobrir o quanto Bolsonaro interferiu nas ações do ministério e se a postura de Bolsonaro contribuiu para a aceleração do contágio e do número de mortes causadas pelo coronavírus no Brasil, que já superam 400 mil. A Comissão Parlamentar de Inquérito é composta majoritariamente por senadores oposicionistas e independentes. Mandetta afirmou que não foi diretamente pressionado pelo presidente a tomar medidas contrárias ao que era recomendado pela ciência, mas que foi publicamente confrontado, o “que dava uma informação dúbia à sociedade”. “Sim, a postura (do presidente) trouxe um impacto (negativo). Você tem que ter, na pandemia, uma fala única. Esse vírus ataca a sociedade como um todo. Ele ataca o sistema de saúde a ponto de derrubá-lo”, afirmou. O depoimento de Mandetta na CPI começou com atraso, porque a sessão virou campo de batalha entre governistas e opositores. O ex-ministro Nelson Teich, que ficou menos de um mês no cargo após Mandetta e saiu pelos mesmos motivos, também seria ouvido hoje, mas por conta do atraso, seu depoimento foi remarcado. O também ex-ministro Eduardo Pazuello, disse que não irá à Comissão; ele alega suspeita de infecção pela Covid-19.

Mandetta foi demitido em 16 de abril de 2020, após um mês de conflitos com Bolsonaro sobre a condução do combate a pandemia, que havia começado em março. As discordâncias iam da necessidade do isolamento social e uso de máscaras até o uso de tratamentos sem comprovação científica. Bolsonaro se recusava a aceitar recomendações científicas para o enfrentamento da pandemia e promoveu o uso de remédios como o cloroquina, que não têm eficácia contra a covid. O presidente queria que a pasta da Saúde incentivasse o uso desses medicamentos, algo que Mandetta se recusou a fazer. Na CPI, Mandetta afirmou que não pediria jamais exoneração do cargo e que foi demitido por “não negociar” “Eu tinha uma paciente doente, eu tinha que ficar com meu paciente. Eu acho que o presidente não gostou, não quis, achou por bem ter outro ministro”, afirmou.

Via: BBC Brasil

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